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Tradução: Urias Echterhoff Takatohi e Marcia Oliveira de Paula
Geoscience Reports 25:1-6 (Spring 1998).
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Introdução
Regiões diferentes da Terra possuem
tipos diferentes de plantas e animais. Todos reconhecem isto, mas não
é fácil explicar o porquê deste fato. De alguma
forma, os cangurus foram para a Austrália, enquanto que os
cavalos só chegaram lá com o auxílio do homem.
Muitas plantas e insetos são encontrados tanto na América
do Sul como na Austrália mas os mamíferos destes dois
continentes são diferentes. Estas questões e muitas
outras semelhantes são feitas por pesquisadores em
biogeografia.
A biogeografia é o estudo
do padrão de distribuição de plantas e animais.
Os biogeógrafos tem interesse em explicar os processos que
levaram à atual distribuição de plantas e
animais na Terra. Não há registros escritos de como se
deu o processo e não se pode repetir a história como um
experimento. Isto torna difícil o estudo do assunto.
Entretanto, alguns indícios ajudam nas tentativas de encontrar
uma explicação. Estes indícios incluem a
localização geográfica dos fósseis, as
espécies de organismos capazes de se dispersarem para ilhas
oceânicas e os aspectos geológicos de uma região.
A biogeografia é um assunto importante para aqueles que
pretendem entender a história da vida nesta Terra. Os padrões
de distribuição biogeográfica são usados
com freqüência para apoiar a teoria da evolução.
Este trabalho fará uma tentativa de esboçar alguns
pontos principais, incluindo os pontos fortes e fracos de uma
compreensão criacionista da biogeografia, usando a Améria
do Sul como exemplo.
Deve-se abordar este tipo
de estudo com expectativas realísticas. Como não se
conhece muito sobre o que realmente aconteceu no passado, os
cientistas históricos podem apenas tentar construir uma
explicação e então verificar se a explicação
funciona. A teoria apresentada neste trabalho não funciona
perfeitamente. Pode-se comparar esses esforços como uma
espécie de jogo de adivinhação. A resposta
correta não é conhecida, mas você espera estar se
aproximando da resposta correta.
A ecologia
influencia a distribuição da fauna. As principais
regiões ecológicas e fisiográficas da América
do Sul são mostradas neste mapa.
Regiões
temperadas: linhas cruzadas;
Florestas
tropicais amazônica e atlântica: linhas inclinadas;
Regiões não florestais tropicais e
subtropicais:
linhas
horizontais com savanas em preto;
Montanhas:
pontilhado.
(Figura modificada de Duellman 1979).
Estudos criacionistas anteriores
Os criacionistas tem lutado há bastante tempo com o problema de explicar a distribuição animal atual a partir da sua dispersão da arca. Browne (1983:1-31) escreveu uma história da biogeografia, que revisa alguns dos primeiros debates, desde o século XVII. Autores criacionistas recentes que tem discutido a questão incluem Whitcomb and Morris (1961:79-88) e Woodmorappe (1990). Nenhum destes discutiu a fauna da América do Sul especificamente.
Hipóteses de uma biogeografia baseada num modelo do dilúvio
A seguir temos um breve esboço de
algumas hipóteses de uma interpretação
biogeográfica de um ponto de vista criacionista:
1. O dilúvio envolveu uma destruição
catastrófica mundial. A Bíblia descreve uma catástrofe
mundial dominada por uma inundação que destruiu os
animais terrestres que respiram ar que não estavam na arca.
Embora Noé tenha levado sementes com ele na arca, muitas
plantas aparentemente sobreviveram o dilúvio fora da arca. (A
Bíblia relata que uma folha de oliveira foi trazida a Noé
pela pomba que ele libertou antes de ter deixado a arca e antes que
tivesse feito qualquer plantação de oliveiras.) Muitas
outras espécies de organismos também sobreviveram ao
dilúvio fora da arca, incluindo todas espécies de
criaturas marítimas, desde a baleia até moluscos e
pingüins.
2. Os organismos podem ter sido
transportados por longas distâncias pelas águas do
dilúvio antes de serem enterrados. Durante os últimos
estágios do dilúvio, a superfície da terra
estava provavelmente dividida em muitas bacias, separadas por águas
rasas ou terra exposta intermitentemente. Os animais e plantas
flutuantes podiam ser depositados em qualquer lado de uma bacia. Isto
significa que encontrar fósseis de animais terrestres
similares em continentes que são agora separados não
implica necessariamente que os organismos tiveram que andar sobre
terra seca entre os dois continentes.
3.
Pressupõe-se que todos os grupos principais de organismos
estavam presentes no início do dilúvio; entretanto, nem
todos os grupos diferentes foram enterrados no mesmo tempo e lugar.
Aqueles organismos enterrados primeiro seriam encontrados em
sedimentos mais profundos do que os entrerrados mais tarde no
dilúvio. O "primeiro aparecimento" de um grupo de
organismos no registro fóssil (a coluna geológica) se
refere ao primeiro enterramento e preservação de um
fóssil de um grupo particular. Isto não implica que o
grupo não existiu antes do tempo em que foi enterrado. A
camada ou "período" no qual o primeiro aparecimento
de um grupo ocorre pode ser um resultado de seu habitat,
comportamento, mobilidade, densidade, ou distribuição
biogeografica antediluviana, ou uma combinação de um ou
mais destes fatores.
4. Os vertebrados
terrestres (animais terrestres com esqueleto) dispersaram-se da arca
para encher a terra após o dilúvio. Portanto, a atual
distribuição de vertebrados terrestres vivos deve estar
relacionada com a história dos continentes após o
dilúvio.
Predições de uma biogeografia baseada num modelo do dilúvio
Baseadas nas suposições acima,
algumas predições biogeográficas podem ser
feitas, como na lista abaixo:
1. Os vertebrados
terrestres vivos devem estar distribuídos de uma maneira que
reflita o arranjo continental atual. As exceções podem
incluir aqueles grupos encontrados em ilhas oceânicas, que tem
a habilidade de cruzar água salgada. Em geral, grupos vivos de
vertebrados estritamente terrestres não devem estar
inteiramente restritos ao hemisfério sul.
2. Aqueles invertebrados e grupos aquáticos que sobreviveram
ao dilúvio fora da arca devem mostrar alguns padrões de
distribuição devidos ao vento ou correntes oceânicas.
Como as correntes oceânicas principais não cruzam o
equador, é de se esperar que algumas plantas, insetos, e
animais aquáticos devam estar distribuídos apenas no
hemisfério sul. Isto deve incluir tanto grupos vivos como
fósseis destes organismos.
3. As
distribuições de fósseis de vertebrados
terrestres não devem estar limitadas da mesma forma que as
distribuições de grupos vivos. De acordo com a
suposição 2, animais podem ter sido arrastados pela
água para o oceano e levados por correntes para as duas
margens de um oceano raso. Portanto, fósseis similares podem
ter sido enterrados tanto na costa oeste da África como na
costa leste da América do Sul. Correntes oceânicas
circulando em torno da Antártica poderiam levar fósseis
potenciais entre a Austrália, América do Sul e sul da
África.
Relações Biogeográficas de Vertebrados Vivos da América do Sul
1. Mamíferos terrestres
A América
do Sul tem uma rica diversidade de vertebrados terrestres vivos,
incluindo cerca de 36 famílias de mamíferos terrestres
(excluindo morcegos). Catorze destas famílias de mamíferos
são aplamente distribuídas e incluem animais familiares
tais como cachorros, gatos, camelos, coelhos e esquilos. Estas 14
famílias de mamíferos podem ser explicadas como animais
que migraram a partir da arca para a América do Sul porque
estes animais ou seus fósseis podem ser encontrados desde o
Oriente Médio até a América do Sul ao longo de
prováveis rotas migratórias.
As
22 famílias de mamíferos restantes tem uma distribuição
muito mais restrita. Onze famílias de marsupiais, primatas e
roedores são restritas à América do Sul. As
outras 11 famílias de edentados, primatas e roedores estão
confinadas ao Novo Mundo (América do Norte e do Sul). Exemplos
destes grupos restritos incluem gambás, tatus, macacos e
porquinhos-da-índia (cobaias, preás). Não se
conhece o modo pelo qual estas 22 famílias chegaram à
América do Sul. A possibilidade de dispersão dirigida
será discutida abaixo.
Nenhuma família
de mamíferos é restrita apenas à América
do Sul e África ou América do Sul e Austrália.
Um grupo de mamíferos terrestres, os marsupiais, são
quase restritas à América do Sul e Austrália.
Entretanto marsupiais fósseis são achados em cada
continente, incluindo a Antárctica, e sua história
biogeográfica, incluindo como chegaram à América
do Sul, não é bem compreendida.
Um tatu (Zaedyus) da Argentina. Os tatus são encontrados principalmente na América dos Sul, com uma espécie chegando a parte sul dos Estados Unidos. Foto cortesia de Clyde Webster.
2. Aves Terrestres
A América do Sul é
famosa por sua rica diversidade de aves. De cerca de 80 famílias,
57 podem ser consideradas terrestres. Vinte e duas destas famílias
são amplamente distribuídas, indicando grande
habilidade de dispersão. A dispersão destes grupos pode
ter iniciado a partir da arca.
Trinta e cinco
famílias de ave são restritas à América
do Sul (6 famílias) ou ao Novo Mundo (29 famílias). Não
se sabe como estes 35 grupos de aves chegaram à América
do Sul.
Um grupo de aves terrestres, as
ratitas, está atualmente restrito aos continentes do
hemisfério sul. São grandes aves que não voam,
tais como as emas e tinamídeos da América do Sul, os
avestruzes da África, e os emus e casuares da Austrália.
Alguns cientistas crêem que elas têm um parentesco
próximo (por exemplo, Cracraft 1974), enquanto outros crêem
que formam um grupo artificial, agrupados devido ao seu grande porte
e características imaturas (Olson 1985). Elas têm a
reputação de serem fortes nadadoras, mas sua história
biogeográfica não é clara. Fósseis
semelhantes a avestruzes são conhecidos em depósitos do
Paleoceno na Europa, mostrando que não são um grupo
estritamente do sul quando os fósseis são incluidos.
Nenhuma família de aves terrestres está restrita apenas
à América do Sul e África. Os avestruzes podem
ter se dispersado para a África a partir do norte. As origens
das emas e tinamídeos da América do Sul é
desconhecida.
Um tucano do Panamá. Os tucanos pertencem à família Rhamphastidae, que é restrita aos trópicos das Américas do Sul e Central. Foto cortesia de Elaine Kennedy.
3. Répteis terrestres
A América
do Sul tem 11 famílias de lagartos e 9 famílias de
cobras. Quatro famílias de lagartos e 7 famílias de
cobras são aplamente dispersas. Vários grupos são
encontrados em ilhas oceânicas, indicando fortes poderes de
dispersão nestes grupos de lagartos e cobras.
Uma família de lagartos está restrita à América
do Sul e cinco outras são restritas ao Novo Mundo. Duas
famílias de cobras estão restritas ao Novo Mundo.
Alguns grupos sul-americanos podem ser ligados a grupos na África
ou Madagascar. A travessia do Atlântico em jangadas naturais
pode ser a melhor explicação para esta ligação.
Uma grande iguana do Brasil. As grandes iguanas são encontradas nos trópicos do Novo Mundo, incluindo as Índias Ocidentais e Ilhas Galápagos, Fiji e Samoa e Madagascar. Foto cortesia de Jim Gibson.
4. Répteis de água
doce
Apenas uma família de tartarugas é
terrestre, mas foi capaz de chegar às Ilhas Galápagos e
outras ilhas oceânicas, assim todas tartarugas provavelmente
tem a capacidade de se dispersar através da água. Das 6
famílias de tartarugas na América do Sul, uma é
endêmica (encontrada apenas na América do Sul), 3 tem
distribuição global e 2 são restritas aos
continentes do sul. As tartarugas provavelmente não requerem
dispersão a partir da arca para explicar sua distribuição,
mas podem ter vivido durante do dilúvio.
Os crocodilianos estão presentes na América do Sul e
também na maioria das áreas mais quentes do mundo. É
duvidoso que crocodilos tenham dependido da arca para sobreviverem.
Uma tartaruga "pescoço de cobra", família Chelidae, do Brasil. Esta família é restrita à América do Sul e Austrália. Foto cortesia de Jim Gibson.
5. Anfíbios de água doce
Quinze famílias de anfíbios vivem na América do
Sul. Estas incluem três famílias de cobras-cegas
(anfíbios semelhantes a vermes), uma de salamandra e 11
famílias de sapos ou rãs. Duas famílias de
cobras-cegas e 6 de sapos são endêmicas na América
do Sul ou restritas ao Novo Mundo. Uma família de sapos é
restrita aos continentes do hemisfério sul. As seis famílias
restantes tem distribuição ampla. Além disto,
conjectura-se que dois grupos de sapos sul-americanos são
possivelmente relacionados a dois grupos de sapos australianos. É
pouco provavel que os sapos necessitaram da arca para sobreviver ao
dilúvio, pois a maioria deles tem estágios de vida
aquáticos. Algumas cobras-cegas também têm
estágios aquáticos, e podem ter sobrevivido ao dilúvio
fora da arca.
Um sapo neotropical (Eleutherodactylus) de Porto Rico. Este é um membro da família Leptodactylidae, que é amplamente distribuída nos trópicos do Novo Mundo, com umas poucas espécies chegando até aos Estados Unidos. Foto cortesia de Jim Gibson.
6. Peixes de água doce
A América
do Sul tem 32 famílias de peixes estritamente de água
doce. Uma família é compartilhada com a América
do Norte e África. Uma família é compartilhada
com a África e Índia. Uma família é
compartilhada com a Austrália , África e Sudeste
asiático, com algums relacionamentos que sugerem conexões
no hemisfério sul. Uma família é compartilhada
apenas com a África. As 28 famílias restantes são
endêmicas da América do Sul. Os peixes não
poderiam ter sobrevivido dentro da arca, assim sua distribuição
não necessita ser explicada com base numa dispersão a
partir da arca.
7. Plantas
Muitas famílias de plantas
sul-americanas, e mesmo gêneros, são compartilhados com
outros continentes do hemisfério sul. Mais de 100 gêneros,
representando cerca de 50 famílias, de plantas lenhosas são
comuns às florestas tropicais da América do Sul e
África. Grupos compartilhados com a Austrália incluem
Araucaria entre as gimnospermas e as angiospermas Nothofagus
(Nothofagaceae), Laurelia (Monimiaceae), Beilschmiedia
(Lauraceae), Weinmannia (Cunoniaceae), Orites
(Proteaceae) e a família Winteraceae. Várias famílias
de plantas, e mesmo gêneros, são restritos à
América do Sul e outros continentes do hemisfério sul.
Tais configurações da distribuição não
são resultado de uma dispersão a partir da arca.
Uma floresta meridional de faias (Nothofagus) na Austrália. As árvores Nothofagus são restritas à América do Sul e regiões Australiasianas. Foto cortesia de Jim Gibson.
Resumo da Parte I
Muitas famílias de vertebrados parecem
ter alcançado a América do Sul a partir do norte, como
seria de se esperar de uma dispersão a partir da arca após
o dilúvio mundial. Isto inclui todas as famílias com
distribuição ampla. Muitas outras famílias são
restritas à América do Sul. Sua história
biogeográfica é desconhecida.
Dois grupos de vertebrados terrestres sul-americanos parecem estar
restritos (ou quase restritos) aos continentes do hemisfério
sul. Estes grupos são os marsupiais e as ratitas. Suas
histórias biogeográficas são desconhecidas, mas
fósseis dos dois grupos tem sido achados nos continentes do
hemisfério norte.
Umas poucas famílias
são encontradas apenas na América do Sul e outros
continentes do hemisfério sul. Estas incluem duas famílias
de tartarugas com pescoço lateral, e pelo menos uma família
de sapos e pelo menos uma família de peixes de água
doce. Muitos grupos de plantas são também restritos aos
continentes do hemisfério sul. Nenhum destes grupos dependeu
da arca para sobrevivência e sua distribuição
provavelmente reflete mudanças geográficas e correntes
oceânicas associadas com o dilúvio.
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