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IDADE RADIOISOTÓPICA, PARTE III:
Tempo na Ciência e na Bíblia

Benjamin L. Clausen
Geoscience Research Institute

Tradução: Urias Echterhoff Takatohi

Geoscience Reports 22:1-5 (Spring 1997).
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    O que é tempo e por que pensamos que é tão importante? É porque precisamos sincronizar nossas agendas, nossas mudanças corporais que causam fome e cansaço, nossa capacidade limitada de suportar dor ou tédio e nosso período limitado de vida para atingir nossos alvos? O tempo para Deus é diferente aparentemente e não corresponde diretamente ao tempo humano (Salmo 90:4; 2 Pedro 3:8); afinal de contas, Deus sabe o fim desde o início. Deus não pode criar o tempo, existir fora do tempo, e mover-se para frente e para trás no tempo?1 O que acontece então com a percepção do tempo quando Deus intervem em sua criação? Efeitos estranhos resultam: o aparecimento do tempo após a criação, os ajustes na medida do tempo após o dia longo de Josué e o recuo do relógio de sol no tempo de Ezequias e a taxa de variação de processos naturais durante o milagre da transformação da água em vinho.

Questões de Tempo Científicas

    Quando visto de uma perspectiva científica, o tempo é um assunto complexo.2
    
O tempo não é absoluto. De acordo com a relatividade especial, nenhuma medida absoluta de tempo é possível para dois objetos em movimento relativo um ao outro, especialmente se o movimento relativo se dá a velocidades próximas à velocidade da luz. Dados experimentais confirmam que o tempo de decaimento de uma partícula de vida curta pode ser muito maior se esta estiver em alta velocidade em relação ao observador do que se estiver em repouso. (Figura 1). De acordo com a teoria da relatividade geral e sua confirmação experimental, o tempo se move mais lentamente em campos gravitationais intensos. A literatura científica padrão freqüentemente especula acerca dos efeitos sobre o tempo em campos gravitationais fortes nas proximidades de buracos negros, discutindo até viagem no tempo.3

Figura 1. Em um espectrômetro tal como mostrado aqui, partículas em alta velocidade levam mais tempo para desintegrar do que se estivessem em repouso. (Foto cortesia B. L. Clausen)

    O tempo tem um início. O texto bíblico (Salmo 102:25,26) influenciou Lord Kelvin em seu desenvolvimento da segunda lei da termodinâmica.4 A segunda lei afirma que a quandidade de energia útil no universo está diminuindo, sugerindo assim um início para o tempo e a necessidade de um “Iniciador”.
    De forma semelhante, a teoria do Big Bang aponta um início para o universo, e para o espaço e tempo e por isso sofreu oposição por razões filosóficas quando foi inicialmente introduzida.5
   
Taxas de transformação podem mudar com o tempo. Como um bom cientista, eu medi a altura de minha filha e fiz o gráfico destas medidas em função do anos. Pela extrapolação desta altura, fiz a extimativa de que ela teria 10 pés de altura quando chegasse aos 30 anos (Figura 2). Felizmente esta extrapolação para o futuro não é válida. A extrapolação no tempo para trás, de milhares de anos de história registrada para os bilhões de anos para o universo, é amplamente apoiada cientificamente, mas também requer cuidados. Talvez o tempo seja o deus-das-brechas para a evolução, pois é pressuposto que dado tempo suficiente qualquer coisa pode acontecer.

Figura 2. Diagrama extrapolando o crescimento da filha em função do tempo.

    Nossa perspectiva sobre o tempo pode mudar. Descobertas científicas inesperadas no passado mudaram as estimativas de idade por várias ordens de magnitude. No século XIX, Lord Kelvin estimou que a Terra tinha cerca de 40 milhões de anos, baseado no tempo necessário para a Terra esfriar a partir de uma bola fundida, pressupondo que todas fontes de calor eram conhecidas.6 Entretanto, depois que uma nova fonte de calor (a radioatividade) foi descoberta em 1896 as estimativas de idade mudaram em duas ordens de grandeza.

    O tempo é um ponto de divergência entre a ciência e a Bíblia.

A Ciência Fornece Longos Tempos

    A matéria do universo e da Terra tem a aparência de ser velha baseado em várias idades radiométricas: a constância das taxas de desitegração de isótopos de longa vida, a concordância entre vários métodos de datação, o fenômeno de Oklo,7 e os valores limitados de meia-vida de isótopos radioativos existentes na natureza.
    Assume-se que os vestígios de vida associados com estas velhas rochas têm a mesma idade. O desenvolvimento gradual ao longo de milhões de anos é a explicação mais fácil para a seqüência vertical no registro fóssil: A detalhada ordem em pequena escala, a falta de mistura (nenhum vestígio de seres humanos junto com dinosauros, nenhum pólem de angiospermas com trilobitas), e a observação de que os fósseis (mesmo de tipos de animais que acredita-se que estiveram na arca de Noé) se tornam progressivamente mais semelhantes às formas modernas na parte superior da coluna geológica. Embora a explicação envolvendo longas eras não seja perfeita, ela explica mais do que a teoria de zoneamento ecológico, flutuação e mobilidade. Outras evidências geológicas, embora não impossíveis de ajustar em um modelo de cronologia curta, são mais fáceis de serem ajustadas em um modelo de longo tempo: resfriamento de batolitos e tectônica de placas, camadas sedimentares "anuais" que em alguns lugares podem se contar até milhões (Figura 3), dados de interior de gelo polar, evidências de atividade animal significativa no registro geológico e recifes de coral e suas taxas de crescimento.
    Boas evidências científicas apoiam longos tempos, e há um modelo bem abrangente com as evidências a favor. Entretanto, a ciência não é perfeita, e algumas evidências que serão depois discutidas apoiam um modelo de tempo curto.

Figure 3. Lâminas (varvito) na formação Castille do Permiano. (Foto cortesia B. L. Clausen)

A Bíblia Fornece uma Cronologia Curta

    A Bíblia não sugere longas eras com morte de animais antes do pecado de Adão. A morte antes do pecado remove a ligação entre o pecado e a morte física; torna Deus diretamente responsável pela competição, sofrimento e morte; e é incompatível com o quadro de um Deus que cuida dos pardais e preparou um céu onde o lobo e o cordeiro habitarão juntos. O Deus de justiça na Bíblia não permitiria a existência do pecado, do mal e da morte mais tempo do que o necessário.8
    O mandamento do sábado não comemora um longo período de desenvolvimento da vida, mas que “em seis dias fêz o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que há neles”. Há boas razões para crer que a Bíblia queira dizer que estes dias foram dias literais.9 O mandamento enfatiza que Deus criou em 6 dias e também o que Deus criou nestes 6 dias, embora várias interpretações incluam aspectos diferentes: todo universo, apenas a vida na Terra, ou apenas uma criação local do homem e seu habitat.
    As genealogias em Gênesis 5 e 11 também favorecem um período de tempo curto desde a criação. Então, teologicamente, um modelo de cronologia curta é mais fácil de ser defendido. Entretanto, interpretações incorretas da Bíblia ocorreram no passado (universo geocêntrico, fixidez das espécies, etc.), assim é importante não exigir mais do que a Bíblia requer. Deve-se tomar cuidado para não repetir os erros dogmáticos do passado, e os detalhes científicos da Bíblia podem necessitar de alguma interpretação em termos técnicos modernos (por exemplo, o processo de ruminação do coelho, a locusta, o besouro e o gafanhoto que tem quatro pés [Levítico 11:6,21-23] versão King James).

Tratando o Conflito

    O conflito entre a ciência e a revelação em questões de tempo é bem visível e não há no momento nenhuma resposta final clara. Entretanto, há outros exemplos de conflito devido à nossa compreensão finita: a natureza divino/humana de Cristo, livre arbítrio e predestinação, e a natureza dual onda/partícula da luz. A lógica humana é limitada a uma avaliação de nossas experiências.
    Evidências empíricas devem ser necessárias para qualquer sistema de crença, e há evidências de que uma visão de mundo totalmente naturalística é insuficiente. Além disto, aqueles com uma estrutura filosófica baseada na Bíblia encontram pelo menos alguma evidência empírica que apoia preferencialmente cronologias curtas e outras que são pelo menos consistentes com cronologias curtas.
    Algumas destas evidências são apresetadas na próxima seção, entretanto, estes dados e outros similares devem ser usadas com cautela: 1) os argumentos são mais complicados e incertos quando todos os fatores são levados em conta; 2) um número maior de dados atuais são melhor explicados por um modelo de tempos longos do que curtos; 3) demonstrar que certos dados não requerem longas eras não dá necessariamente apoio para um modelo de cronologia curta; apenas os coloca numa categoria de ajuste alternativo; 4) nenhum modelo geológico abrangente ajusta todos os dados, de forma que problemas com um modelo de longas eras não implica necessariamente que um modelo de tempos curtos é correto; 5) não há disponível nenhum modelo de tempo curto para rivalizar o modelo de longas eras; 6) finalmente, qualquer modelo bíblico de cronologia curta deverá incluir alguma atividade sobrenatural, tornando-se inaceitável como um modelo científico; 7) aceitar a Bíblia porque a ciência a apoia leva à tendência de colocar a ciência acima da Bíblia e a razão a percepção dos sentidos acima da revelação, tornando mais fácil descartar a Bíblia quando uma evidência científica for incompatível com ela.

Reintrepretação da Ciência

    Dados significativos ajustam-se melhor a uma longa cronologia; entretanto, muitos dados podem se ajustar aos dois modelos (especialmente após uma reinterpretação), e alguns dados são melhor explicados por um tempo curto para rochas e vestígios de vida que elas contém: 1) espera-se que o carvão tenha se formado a milhões de anos mas a datação por carbono 14 resulta em cerca de 40.000 anos;10 2) taxas de erosão geológica, sedimentação e soerguimento de montanhas sugerem uma escala de tempo mais curta;11 3) paraconformidades sugerem um tempo limitado entre algumas camadas sedimentares;12 4) espera-se que moléculas biológicas em rochas datadas em milhões de anos teriam-se desintegrado em muito menos tempo.13
    Alguns dos dados científicos podem ser interpretados em termos de uma curta existência da vida na Terra, mas com a matéria da Terra existindo a mais tempo. Então os grandes valores de datação radiométrica seriam então aceitos como reais, mas não representariam o tempo de deposição da rocha ou de seu conteúdo fóssil. São comuns as discordâncias entre datações radiométricas diferentes devido à retenção de argônio (para datação por K/Ar), devido à reajustes metamórficos e devido às diferentes fontes da rocha sedimentar. Algumas considerações geoquímicas podem dar explicações alternativas para o fato geral de que camadas de rocha inferiores produzem valores maiores de idade que as superiores: 1) fracionamento e zoneamento em uma câmara de magma; 2) incorporação de material da crosta enquanto o magma se movimenta; 3) isócronas que não representam idades, e sim linhas de mistura; e 4) influência da pressão hidrostática no escape de argônio em rocha vulcânica submarina.
    Aqueles que sentem que a Bíblia exige que a matéria da Terra e do universo seja jovem14 usam evidências tais como: mudança nas constantes fundamentais da natureza, inclusive taxas de decaimento, uma diminuição na velocidade da luz, halos pleocróicos de polônio, uma profundidade pequena de poeira meteórica na Lua, efeitos extra-terrestres (tais como raios cósmicos),15 e efeitos da mecânica quântica (tais como o princípio da incerteza).

Reinterpretação da Bíblia

    Foram sugeridas várias teorias para harmonizar a cronologia curta da Bíblia com as longas eras científicas, cada uma com suas vantagens e desvantagens.
    Universo jovem. Este é o modelo mais fácil de ser defendido do ponto de vista teológico, pois a Bíblia quase não tem indicações contrárias. Entretanto, o modelo apresenta pouca conformidade com a maioria das evidências científicas.
    Universo velho mas sistema solar e Terra jovens. Este modelo ajuda explicar cientificamente fenômenos astrofísicos distantes, e alguns textos bíblicos podem ser usados para sugerir a existência de outros seres antes da criação deste mundo. Este modelo aceita longas idades para a evolução estelar; entretanto, afirma arbitrariamente que a estrela em nosso sistema solar (o Sol) foi criada especialmente.
    A matéria da Terra e do sistema solar é velha, mas a vida na Terra é recente. Este modelo sugere uma terra e sistema solar pré-existentes. Assim a criação em Gênesis 1 inclui apenas a atmosfera (o firmamento ou céus) e a terra seca. Como observado anteriormente, este modelo pode ajudar significativamente com os dados radiométricos. Entretanto, o relato de Gênesis coloca o sol "no firmamento dos céus". O relato do Gênesis demonstra que Yahweh é maior do que os deuses da natureza, incluindo o sol. Deixar a criação dos sol fora do quarto dia facilmente leva a deixar outras atividades criativas fora da semana da criação. Também o argumento de que as rochas com pouca vida (Precambrianas) são antigas enquanto as com muito vestígio de vida (Fanerozóicas) são jovens é de certa forma inconsistente cientificamente, pois elas são geologicamente semelhantes de muitas formas.
    Vida antiga na Terra, mas destruida e a vida atual recriada recentemente. Neste modelo, o registro fóssil é devido a uma criação antiga destruida antes do relato em Gênesis. O dilúvio de Noé teria sido local. Embora este modelo coloque a morte e o registro fóssil antes do pecado de Adão, ela pode ser colocada após o pecado do diabo e como resultado de seus experimentos.16 Entretanto, a Bíblia assume que a morte dos animais é o resultado do pecado de Adão e que o dilúvio de Noé foi mundial. A migração poderia ter sido uma solução mais fácil do que a construção de uma arca para salvar a vida de uma inundação local; além do mais muitas inundações locais ocorreram depois, invalidando a promessa de Deus de não mais destruir a terra por um dilúvio. Uma variação interessante deste modelo inclui efeitos relativísticos.17
    A vida atual foi desenvolvida progressivamente por Deus através de longos períodos, mas Deus ainda é o Criador. A criação progressiva e evolução teísta aceitam a interpretação científica padrão de longas eras para dados geológicos, mas ainda mantém Deus como Criador e/ou Planejador. Entretanto, a literalidade de Gênesis 1-11 é atestada por outros autores bíblicos, e esta teoria aceita a morte antes do pecado.

Conclusão

    Qualquer das resoluções propostas ao conflito têm problemas significativos. Os prós e contras de cada precisam ser considerados, pois pode-se ser mais objetivo ao considerar várias opções. Devido as possibilidades de erro ao desenvolver um modelo de história da Terra, prefiro cautela — a certeza bíblica e incerteza científica, acima da certeza científica e incerteza bíblica. Considerando a dificuldade de analisar cientificamente as atividades de Deus, alguma confirmação para crer, proveniente do mundo físico deve ser esperada, mas é pouco provável que sejam conclusivas.
    A resposta de Jó às perguntas de Deus (Jó 40:4,5; 42:2,3) nos faz lembrar que muita coisa acerca do tempo nunca será conhecida até que cheguemos ao céu. Nesta Terra, o estudo contínuo e a disposição para mudar de opinião são necessários. Entretanto para mim, há dois pontos não negociáveis: qualquer modelo de origem que apresente mal o caráter de Deus ou que ponha a razão humana acima da revelação divina é inaceitável.

NOTAS

  1. Ross H. 1996. Beyond the cosmos: the extra-dimensionality of God: what recent discoveries in astronomy and physics reveal about the nature of God. Colorado Springs, CO: NavPress.

  2. Davies P. 1995. About time: Einstein's unfinished revolution. NY: Simon and Schuster.

  3. Thorne KS. 1994. Black holes and time warps: Einstein's outrageous legacy. NY: W.W. Norton.

  4. Smith CW, Wise MN. 1989. Energy and empire: a biographical study of Lord Kelvin. Cambridge: Cambridge University Press. See p 317, 331, 332, 501.

  5. Jastrow R. 1978. God and the astronomers. NY: W.W. Norton. See p 28, 48, 111-116.

  6. Burchfield JD. 1990. Lord Kelvin and the age of the Earth. Chicago: University of Chicago Press.

  7. Webster CL. 1990. The implications of the Oklo Phenomenon on the constancy of radiometric decay rates. Origins 17:86-92.

  8. Baldwin JT. 1991. Progressive creation and biblical revelation: some theological implications. Origins 18:53-65; cf: Isaac R. 1996. Chronology of the fall. Perspectives on Science and the Christian Faith 48 (March):34-42.

  9. Hasel GF. 1994. The 'days' of creation in Genesis 1: literal 'days' or figurative 'periods/epochs' of time? Origins 21:5-38.

  10. Brown RH. 1988. The upper limit of C-14 age? Origins 15:39-43.

  11. Roth AA. 1986. Some questions about geochronology. Origins 13:64-85.

  12. Roth AA. 1988. Those gaps in the sedimentary layers. Origins 15:75-92.

  13. Brown RH. 1991. Fresh bread; old fossils. Origins 18:89-92.

  14. Brown WT, Jr. 1989. In the beginning.... 5th ed. Phoenix, AZ: Center for Scientific Creation.

  15. Cook MA. 1993. Scientific prehistory. Bountiful, UT: Family History Publishers.

  16. Chartier G. 1985. Jack Provonsha on fundamentalist geology: 'more needs to be said.' La Sierra Criterion 57 (8 November):1,4,8.

  17. Rowland SC. 1992. An 'Impossible' Model. Newsletter of the Association of Adventist Physicists 22(1):6-7.


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